A transição do ESG para o ESG 2.0

15/04/2026

A transição do ESG para o ESG 2.0

Por Francisco Christovam

 

ESG é uma estrutura de avaliação que impulsiona organizações rumo à sustentabilidade, em seu sentido mais amplo. A sigla, que significa Ambiental, Social e Governança (Environmental, Social and Governance), surgiu em 2004, por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). Na verdade, essas organizações multilaterais desafiaram os CEOs de grandes bancos a integrar fatores ambientais, sociais e de governança ao mercado de capitais, transformando sustentabilidade em métricas financeiras e de investimento.

 

Em essência, o ESG reúne critérios para avaliar sustentabilidade e impacto ético de empresas, indo além dos resultados financeiros. Analisa como a organização gerencia riscos e oportunidades ligados ao meio ambiente, à sociedade e à administração, sendo fundamental para investimentos responsáveis, pois evidencia o compromisso da empresa com práticas duradouras, transparência e responsabilidade perante todos os agentes da cadeia produtiva.

 

No aspecto ambiental, avalia-se a gestão de resíduos, controle de emissões, uso de recursos naturais e preservação da biodiversidade. O pilar social examina relações da empresa com pessoas e comunidades, considerando direitos humanos, diversidade, inclusão, condições de trabalho, saúde, segurança e satisfação dos clientes. Já a governança aborda administração, transparência, ética, estrutura de liderança, políticas de remuneração, proteção dos acionistas e combate à corrupção.

 

O conceito se fortaleceu nas últimas décadas, impulsionado pela emergência climática e maior pressão por transparência, tornando-se um diferencial competitivo essencial. Para as empresas, implementar práticas ESG amplia competitividade, atrai talentos, fortalece reputação, melhora o relacionamento com clientes e parceiros e assegura a continuidade dos negócios. Para a sociedade, estimula comportamentos empresariais responsáveis, colaborando para um mundo mais justo e sustentável.

 

Historicamente, as questões ambientais receberam maior destaque, impulsionadas pela preocupação com mudanças climáticas e preservação dos recursos naturais. Aspectos sociais também ganharam relevância com a demanda por trabalho justo, respeito aos direitos humanos, diversidade, inclusão e bem-estar das comunidades. Por outro lado, a governança corporativa ficou muitas vezes em um terceiro plano, vista apenas como umaexigência formal. No entanto, é um atributo essencial para garantir a adoção efetiva das práticas ambientais e sociais, promovendo transparência, ética e responsabilidade em todos os níveis.

 

Uma governança robusta assegura mecanismos de controle, políticas claras de remuneração, combate à corrupção, proteção dos acionistas e gestão de riscos, fortalecendo a confiança dos “stakeholders” e a viabilidade dos negócios. O equilíbrio entre os três pilares é cada vez mais reconhecido como fundamental para criar valor, reputação e perenidade organizacionais.

 

Recentemente, com mercados mais dinâmicos e competitivos, as empresas passaram a reavaliar, em profundidade, a aplicação dos conceitos ESG, considerando não só custos e benefícios, mas também o impacto estratégico dessas práticas no posicionamento corporativo. Esse processo envolve análise detalhada sobre como iniciativas ambientais, sociais e de governança geram respeito, fortalecem imagem, mitigam riscos e atraem investimentos, além de promover inovação e adaptação a novas demandas regulatórias e sociais.

 

Em debate promovido pela plataforma de vídeos YouTube, o cientista social, diplomata e economista brasileiro Marcos Prado Troyjo, autor de vários livros e, atualmente, Co-Chairman do LIDE (Grupo de Líderes Empresariais) e membro do Fórum Econômico Mundial, defendeu a necessidade urgente da evolução do tradicional ESG para o ESG 2.0. Segundo ele, esse novo estágio representa uma reforma estrutural imprescindível, para evitar a perda de relevância do ESG no universo corporativo contemporâneo.

 

O ESG 2.0, como proposto por Troyjo, vai além da adoção de práticas ambientais, sociais e de governança, integrando esses pilares, de forma estratégica, às operações empresariais, com foco em Economia, Segurança e Geopolítica. Essa abordagem exige métricas mais precisas e transparentes, capazes de demonstrar o impacto das ações corporativas na ética nos negócios.

 

Troyjo destaca a importância de envolver todos os agentes na transformação, promovendo uma cultura organizacional baseada em responsabilidade, inovação e perenidade. A evolução exige revisão de estratégias, políticas internas e mecanismos de governança, assegurando implementação e aprimoramento contínuo das práticas ambientais e sociais. O ESG deve ser visto como motor do desenvolvimento sustentável, capaz de fortalecer reputação, atrair investimentos, mitigar riscos e contribuir para um mundo mais justo.

 

Essa transformação decorre de uma profunda reconfiguração geopolítica global, com mudanças substanciais nas relações entre governos, empresas e sociedade civil. Novos acordos multilaterais, conflitos e pressões regulatórias internacionais alteram o ambiente de negócios, exigindo postura mais estratégica e adaptável aos desafios globais.

 

As empresas deixam de ser apenas agentes econômicos, tornando-se protagonistas em temas como segurança energética, ética na cadeia de suprimentos, proteção de dados transnacionais, responsabilidade social ampliada e inovação tecnológica. A título de exemplo vale citar que, diante da demanda por energias renováveis, assunto tão importante para o setor dos transportes, corporações do setor elétrico precisam investir em tecnologias limpas e garantir transparência sobre impactos ambientais.

 

Muitas empresas multinacionais enfrentam o desafio de alinhar práticas de governança e responsabilidade social a exigências regulatórias de diferentes países, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), no Brasil, e o General Data Protection Regulation (GDPR), na União Europeia. O setor financeiro passou a incorporar critérios ESG na análise de risco, influenciando decisões de crédito e investimentos ao considerar impacto social, conformidade ética e resistência diante de crises geopolíticas.

 

O ESG 2.0 deve ser visto como uma evolução do atual sistema e não uma mera substituição de práticas e conceitos. Diferente de uma simples atualização, o ESG 2.0 propõe uma integração mais profunda e estratégica dos pilares ambiental, social e de governança, ampliando seu escopo para incorporar também aspectos econômicos, de segurança e de geopolítica. Essa evolução implica que empresas não apenas adotem práticas responsáveis, mas as alinhem diretamente aos objetivos estratégicos do negócio, promovendo uma cultura organizacional voltada para a inovação, a perenidade e a geração de valor.

 

Além disso, o ESG 2.0 exige a revisão constante das políticas internas e dos mecanismos de governança, assegurando que as ações sejam mensuráveis por meio de métricas cada vez mais precisas e transparentes. O novo modelo demanda o engajamento de todos os agentes na construção de soluções que respondam de maneira ágil aos desafios contemporâneos, como mudanças regulatórias, crises geopolíticas e exigências sociais crescentes. Dessa forma, o ESG 2.0 transforma as empresas em protagonistas de temas cruciais como segurança energética, proteção de dados, ética nas cadeias de suprimentos e inovação sustentável, fortalecendo sua reputação e capacidade de adaptação diante de um cenário global em constante transformação.

 

Nos debates havidos no Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, em janeiro deste ano, sob o tema “A Spirit of Dialogue” (Um Espírito de Diálogo), o tema ESG foi tratado como um imperativo estratégico e regulatório, para garantir a eficiência empresarial e impulsionar o crescimento econômico, diante dos atuais riscos geopolíticos e climáticos. O evento marcou uma transição do enfoque tradicional de divulgação – relatório de conformidades – para a incorporação prática de ações sustentáveis, elevando-as ao patamar de diferencial competitivo e parte integrante da infraestrutura econômica das organizações.

 

Assim, a sustentabilidade deixa de ser apenas uma exigência de atendimento a padrões estabelecidos para se consolidar como base sólida na geração de valor. A discussão sobre transição energética, por exemplo, deverá ser conduzida de maneira mais estratégica e objetiva, com foco no mercado de energia e na gestão efetiva de riscos, em vez de uma abordagem de caráter mais ideológico.

 

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(*) Francisco Christovam é diretor-presidente (CEO) da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), vice-presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo (FETPESP) e da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), bem como Diretor da Sessão de Transporte de Passageiros da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e membro do Conselho Deliberativo do

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